Dos 659 transplantes de córnea realizados no Paraná até julho, 27% ocorreram no Hospital de Olhos de Cascavel
Mesmo com o avanço dos transplantes, a espera por uma córnea ainda faz parte da realidade de milhares de paranaenses. Em julho de 2026, 2.926 pessoas aguardavam pelo procedimento, número superior inclusive ao de pacientes à espera por um rim, que somava 2.387, segundo dados do Sistema Estadual de Transplantes do Paraná. O cenário reforça a importância do Setembro Verde e da mobilização pela doação de órgãos e tecidos.
Entre janeiro e julho, o Paraná contabilizou 718 notificações de potenciais doadores por morte encefálica e 252 doações efetivas. O levantamento também aponta que, entre os motivos de não doação registrados no período, houve 149 recusas familiares, correspondentes a 33% dos casos.
Em Cascavel, o Banco de Olhos atua há 20 anos na identificação de potenciais doadores, na abordagem e no acolhimento das famílias, além da captação e avaliação dos tecidos e de ações permanentes de conscientização. Nesse período, a instituição recebeu quase 8 mil doações e captou mais de 15 mil córneas, destinadas a pacientes de diferentes regiões.
A técnica de abordagem familiar do Banco de Olhos, Neiva Muller, destaca que o trabalho começa muito antes do momento da doação. “Atuamos diariamente levando às famílias a possibilidade de doar as córneas de seus entes queridos, mas nosso trabalho também passa pela conscientização. Realizamos ações em escolas, faculdades e ambulatórios para informar, esclarecer dúvidas e incentivar as pessoas a conversarem sobre o tema e manifestarem o desejo de serem doadoras.”
Um em cada quatro transplantes
Nos primeiros sete meses de 2026, 659 transplantes de córnea foram realizados no Paraná. Desse total, 175 ocorreram no Hospital de Olhos de Cascavel, o equivalente a aproximadamente 27% dos procedimentos registrados no Estado no período. Na prática, cerca de um em cada quatro transplantes de córnea realizados no Paraná ocorreu na instituição.
O oftalmologista do Hospital de Olhos Dr. Darci Dacome explica que diferentes doenças podem levar à necessidade do procedimento. “Ceratocone avançado, cicatrizes provocadas por infecções ou traumas e distrofias corneanas, como a distrofia de Fuchs, podem comprometer a visão e a qualidade de vida. A indicação, porém, depende da evolução da doença e das condições de cada paciente”, explica.
Os avanços das técnicas cirúrgicas também permitem preservar parte da córnea em determinados casos. “Hoje, nem sempre precisamos substituir toda a córnea. Nos transplantes lamelares e endoteliais, conseguimos trocar somente a parte comprometida e preservar o restante do tecido do paciente, o que pode reduzir o risco de rejeição e proporcionar uma recuperação visual mais rápida”, afirma.
Segundo o especialista, o transplante também não é necessariamente a primeira alternativa. Dependendo da doença e do estágio, tratamentos com óculos, lentes de contato ou crosslinking podem ser considerados antes da cirurgia.
Da doação à autonomia
Para quem necessita do transplante, receber uma córnea pode representar a retomada da autonomia e de atividades que haviam sido comprometidas pela perda visual. “Uma córnea doada pode permitir que outra pessoa volte a enxergar, recupere autonomia e tenha mais independência. É um gesto capaz de transformar a vida de quem recebe”, ressalta Dr. Darci.
Aos 38 anos, Thays Gomes Rebolca já começa a perceber essa transformação. Diagnosticada com ceratocone aos 22 anos, ela passou por diferentes tratamentos para tentar conter o avanço da doença, entre eles o crosslinking, a implantação do anel de Ferrara e o uso de lentes de contato. Com a progressão do quadro, porém, o transplante tornou-se a alternativa indicada para o olho esquerdo.
A cirurgia foi realizada no dia 12 de janeiro. Thays conta que recebeu a notícia com medo, especialmente por já ter enfrentado outros procedimentos e por compreender o impacto que uma perda maior da visão teria em sua vida. Apesar do receio, seguiu com o tratamento e, ainda durante a recuperação, começou a perceber os primeiros resultados.
Um desses momentos ocorreu durante uma celebração na igreja. Ainda com nove pontos e utilizando óculos, ela retirou as lentes, fechou o olho direito — que também tem ceratocone e ainda não passou por cirurgia — e tentou acompanhar as imagens exibidas no telão apenas com o olho transplantado.
“Eu consegui enxergar tudo, tudo no telão. Naquele momento pensei: ‘Nossa, que emoção’. Todo o processo é dolorido e não é fácil, mas o transplante já está trazendo muita qualidade de vida”, conta.
A melhora também começa a ser percebida em atividades cotidianas. Thays dirige com frequência e relata avanços principalmente na visão noturna. Para ela, continuar enxergando significa preservar a independência, acompanhar o crescimento da filha e manter a rotina que construiu.
“Imaginar não conseguir enxergar o mundo, as pessoas e a minha filha seria uma tortura muito grande. Hoje, o que me motiva a continuar o tratamento é perceber que a cirurgia está evoluindo bem”, afirma.
Banco de Olhos avança pelo Paraná
Em 2026, o trabalho do Banco de Olhos de Cascavel também ganhou maior alcance com a expansão da captação para o Noroeste do Paraná, chegando a municípios como Umuarama, Campo Mourão, Goioerê, Paranavaí, Cianorte, Sarandi e Maringá.
Para Neiva Muller, a conscientização sobre a doação de córneas deve começar dentro de casa. “Quem deseja ser doador precisa conversar sobre o assunto e deixar essa vontade clara para a família. É ela quem poderá autorizar a doação quando esse momento chegar.”



